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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Dos ressentidos

Um ano é muito tempo para agradar e desagradar. É suficiente para nascer os filhos do ressentimento. Sem eles seria impossivel ter o retrato completo com as marcas do estilo. Nos governos os satisfeitos são alegres, cheios de vida, porem imprestaveis. Completam a cena, mas não a torna rica das verdades indispensaveis ao desenho do rosto. O riso só castiga o costume quando é de ironia.
Com um ano, não. Todas as flores brotam, arvores dão frutos. Dos dias, de tão públicas; das noites, tão discretas; das madrugadas, de tão furtivas. Não há como esconde-las ou disfarça-las. Elas saem no mais fundo dos pântanos como foram concebidas. Soltam o doce perfume da satisfação ou a essencia mal-cheirosa que a todos avisa. O ressentido não esquece o que lhe fere a alma. A palavra ou o silencio, tanto faz. É prisioneiro da própria magoa e do desgosto, a sonhar não em ser livre, mas em ferir aquele que lhe feriu. Já dizia William Shakespeare 'Guardar ressentimento é como tomar veneno e esperar que a outra pessoa morra'.
Há no ressentido alguma força estranha que o empurra ate a beira do precipício, até a borda do despenhadeiro, quase ali, na vertigem do salto. O ressentimento é como se fosse um espasmo, uma forte atração. É preciso expelir, esvaziar-se, livrar-se do fermento que fermenta e da náusea que enfastia e amarga a boca. O ressentido tem a maldição das almas inconformadas e das carnes feridas. E por isso fala ou escreve como forma de por as compressas que apresentam a dor das feridas abertas no peito.

E as palavras têm vida. Com o tempo, não é possível dize-las ou escrevê-las sem as tintas da emoção. Nas palavras do ressentido o não dito nasce entre as linhas do dito e se revela como sua força suave e estranha. Mesmo o mais discreto e o mais cuidadoso dos ressentidos confessa, quando escreve, seu ressentimento. Revela-se como quem derrama sobre as palavras o leite talhado das magoas azedas e que fechou no mais intimo do sentimento humano, no ultimo e escuro salão da alma.
De sua tessitura, como se nascida das tramas, de fio a pavio, brotam as vinhas da ira. Basta o olho perscrutador e curioso. O olho a colear, sinuoso e vivo, como se seguisse a presa. As palavras são reveladoras da alma, mesmo aquelas aparentemente tão banais.
Por fim, que se saiba para sempre: o ressentido, se refinado no seu azedume civilizado, maneja com destreza a dissimulação. Seu disfarce é o riso que inventa como uma máscara. Nada foge, nem dos olhos, para ferir o silêncio com o qual resguarda o ressentimento ao fazê-lo chegar ao seu destinatário. E, se é inevitável, o faz com todo o zelo. Num misto de cuidado e requinte.  (VS) O Jornal de Hoje

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