De uns tempos pra cá, tenho prestado atenção à grande angustia em busca da felicidade. Nem tão profundamente assim que fizesse um cronista ser capaz de escrever um tratado em torno do desejo de ser feliz, nem tão pouco a ponto de perdê-lo de vista. Os recortes, revistas, livros e entrevistas vão caindo no poço desta curiosidade de repórter e só agora vejo o quanto tem sido intenso esse sonho. Talvez maior que o dinheiro e a glória, matérias de que são feitas as vaidades humanas.
Lembro de um artigo de Roberto Pompeu de Toledo, ali na ultima página de uma edição da Veja, ainda em março de 2010, apontando um toque de crueldade dos pais quando esperam dos seus filhos que eles sejam felizes. Como se fosse fácil. Não são conscientes do peso desse desejo, justificável por todos os motivos. O que não notão é quanto pode ser difícil ser feliz, com ou sem uma boa herança. Principalmente quando se sabe que a felicidade tem sempre algo de muito pessoal e angustiante.
Bertrand Russel no seu texto famoso 'A Conquista da Felicidade' que circulou no Brasil mais facilmente a partir do inicio dos anos 80, imaginou que os animais irracionais seriam mais felizes que os humanos na medida em que precisavam apenas de uma 'boa saúde e bastante comida'. Ora, se fosse assim todas as pessoas bem de vida seriam felizes. E os ricos e muito ricos não se suicidariam. Nem tomariam barbitúricos.Para Russel, talvez as horas de trabalho sejam tristes. Tão tristes que o pobre ser humano, ao invés de dedicar ao sono ou ao descanso seu ócio, prefere a agitação do lazer e da diversão. Como não bastasse a tristeza dos dias de luta pela sobrevivência, Russel chega a afirmar no sexto capitulo - seria um filósofo moderno, mas supersticioso? - que a inveja é 'uma das mais poderosas causas da infelicidade'. Para ele, uma paixão humana profunda, perversa, a florescer com o fel na própria alma.
Uma coisa parece certa: o homem busca a felicidade desesperadamente. Quem afirma é André Comte-Spoville, ícono da moderna filosofia francesa, na sua conferência célebre pronunciada em 1999. Talvez a solução ideal para esse homem seja vencer o desafio de inventar a pílula da felicidade e toma-lá todas as manhãs. Mas, ressalva, com o mesmo humor e genialidade: talvez com alguns dias já não fosse suficiente. É que, às vezes, a felicidade vai embora levada pela monotonia de dias sempre iguais.
É então que ele conta a pequena história do encontro de André Malraux com um velho pároco. O filósofo existencialista perguntou ao humilde confessor o que ele diria a alma humana depois de tantos anos ouvindo os segredos maiores e mais íntimos que a ninguém mais seria confessados. E o padre respondeu: 'As pessoas são muito mais infelizes do que se imagina'. Talvez Camus tivesse razão: 'Os homens morrem e não são felizes'. Mesmo que vivam a procura-la. Calma ou desesperadamente. (VS) O Jornal de Hoje

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